Em Além do princípio do prazer (1920), Freud introduz uma inflexão decisiva em sua teoria do funcionamento psíquico ao reconhecer que o princípio do prazer não é suficiente para explicar determinados fenômenos clínicos e subjetivos. Até então, o aparelho psíquico era concebido como orientado fundamentalmente pela busca da diminuição da excitação e pela evitação do desprazer, sendo o princípio da realidade entendido como uma modificação desse princípio, responsável por adiar a satisfação pulsional em função das exigências do mundo externo. Contudo, a observação de fenômenos como as neuroses traumáticas, os sonhos repetitivos de ex-combatentes e a persistência de certos destinos sintomáticos levou Freud a questionar a centralidade absoluta do princípio do prazer.
O ponto de ruptura dessa concepção reside na constatação de que muitos sujeitos se veem compelidos a repetir experiências marcadas pelo sofrimento, pela perda e pelo desprazer, sem que essa repetição produza qualquer ganho de prazer ou adaptação à realidade. Freud denomina esse fenômeno de compulsão à repetição, destacando seu caráter automático, inconsciente e resistente à simbolização. Tal repetição não se apresenta como lembrança elaborada, mas como reencenação insistente, configurando aquilo que pode ser compreendido como um verdadeiro eterno retorno do mesmo no campo psíquico.
Essa lógica torna-se particularmente evidente na experiência traumática. O trauma é descrito como um excesso de excitação que ultrapassa a capacidade do aparelho psíquico de ligação no momento em que ocorre. Incapaz de ser simbolizada, a vivência traumática permanece como um núcleo não elaborado que retorna compulsivamente sob a forma de sonhos, sintomas e atos repetitivos. O sujeito não recorda o trauma como passado, mas o revive incessantemente no presente, permanecendo aprisionado a uma temporalidade circular. O eterno retorno do mesmo expressa, assim, a insistência de algo que não pôde ser inscrito simbolicamente na história psíquica.
É a partir desse impasse que Freud introduz a hipótese da pulsão de morte. Ao fazê-lo, não se refere à morte em seu sentido empírico ou biológico, mas a um conceito metapsicológico que diz respeito ao modo fundamental de funcionamento das pulsões. A morte, nesse contexto, designa uma tendência intrínseca do psiquismo ao desligamento, à redução absoluta da tensão e ao retorno a estados anteriores de menor complexidade. Freud parte da suposição de que todo organismo vivo carrega em si uma inclinação conservadora, cujo objetivo último seria restaurar um estado anterior ao da vida, isto é, o estado inorgânico.
Essa formulação implica uma ruptura com uma concepção exclusivamente vitalista do aparelho psíquico. A pulsão de morte é descrita como silenciosa, repetitiva e fundamentalmente conservadora, atuando no sentido de desfazer ligações e dissolver formas complexas de organização psíquica. Diferentemente das pulsões de vida, orientadas à ligação, à criação de objetos e à construção de sentido, a pulsão de morte opera por meio da repetição, da estagnação e da tendência à inércia. Nesse sentido, Freud afirma que a vida psíquica não é orientada apenas pela busca de prazer, mas também por uma força que insiste em conduzir o sujeito de volta a estados anteriores, menos tensionados e menos diferenciados.
A experiência traumática e a compulsão à repetição oferecem, assim, um acesso privilegiado à compreensão da pulsão de morte. A repetição do desprazer não é interpretada como uma falha do princípio do prazer, mas como expressão de uma tendência mais originária, que se impõe ao psiquismo independentemente da busca de satisfação. A morte, enquanto conceito metapsicológico, manifesta-se precisamente nessa insistência em repetir o que não pôde ser ligado, simbolizado ou elaborado, revelando um movimento que não visa ao futuro nem à transformação, mas ao retorno.
Nessa perspectiva, o princípio do prazer assume um papel ambíguo. Ao buscar a diminuição da excitação, ele pode funcionar como mediador da pulsão de morte, uma vez que a redução extrema da tensão corresponderia ao seu triunfo último. A morte, portanto, não se opõe frontalmente ao prazer, mas se articula a ele de maneira paradoxal. Já o princípio da realidade tenta conter esse movimento, impondo limites e adiamentos à descarga pulsional, mas mostra-se insuficiente diante da força silenciosa da repetição.
É nesse horizonte teórico que Freud introduz uma vinheta clínica fundamental, que permite articular repetição, perda e elaboração simbólica
É nesse horizonte que Freud introduz o célebre exemplo do jogo infantil conhecido como fort/da. Ao observar uma criança pequena, com cerca de um ano e meio de idade, pertencente ao seu círculo familiar, que lançava um carretel para longe, acompanhando o gesto com a vocalização “fort”, e o trazia de volta dizendo “da”, Freud interpreta essa brincadeira como uma tentativa de dominar psiquicamente a experiência da ausência materna. Segundo o autor, “a interpretação do jogo foi simples, então. Ele estava relacionado à grande conquista cultural do menino, a renúncia instintual (renúncia à satisfação instintual) por ele realizada, ao permitir a ausência da mãe sem protestar” (FREUD, 1920/2010).
O jogo não elimina o desejo pela mãe, mas permite ao aparelho psíquico tolerar sua ausência por meio da simbolização. Ao transformar uma experiência originalmente passiva — a ausência do objeto amado — em uma cena que pode ser repetida e controlada, a criança se coloca em uma posição ativa, apropriando-se de sua própria experiência psíquica. Conforme destaca Freud, o jogo possibilita que o sujeito abandone a passividade diante da perda e assuma um papel atuante, no qual ele mesmo provoca, representa e domina simbolicamente a ausência do objeto.
Nesse movimento, o menino ensaia uma forma inicial de elaboração da perda, convertendo a dor da separação em um gesto simbólico que lhe permite suportar a realidade da ausência sem sucumbir ao desamparo. Essa passagem da passividade à atividade constitui um elemento fundamental da elaboração psíquica, pois oferece ao ego uma primeira forma de domínio da experiência traumática. O fort/da antecipa, assim, a lógica do trabalho de luto, na medida em que a renúncia pulsional e a simbolização se articulam como condições para a aceitação da perda.
Assim como no luto o sujeito é convocado a desinvestir libidinalmente o objeto perdido sem apagá-lo da vida psíquica, o menino, ao repetir simbolicamente a ausência da mãe, aprende a abrir mão da satisfação instintual imediata em favor de uma elaboração representacional da sua perda.
O trabalho de luto exige que o aparelho psíquico aceite a ausência do objeto amado, renunciando ao desejo primordial de sua presença contínua, ao mesmo tempo em que preserva internamente o vínculo com ele.
Nesse ponto — entre repetição, perda e elaboração — que a leitura kleiniana amplia o alcance da formulação freudiana.
A perspectiva kleiniana amplia e aprofunda essas formulações freudianas ao deslocar o eixo da compreensão do trauma e do luto para o campo das relações de objetos internos. Para Melanie Klein, o trauma não se restringe a um acontecimento externo excessivo, mas refere-se, sobretudo, às experiências precoces de perda, frustração e angústia que incidem sobre um ego ainda imaturo.
O luto, nesse sentido, não é apenas um processo posterior à perda real do objeto, mas uma experiência psíquica estruturante que acompanha o desenvolvimento desde a infância. Diferentemente de Freud, que descreve o trabalho de luto principalmente como um processo de desinvestimento libidinal, Klein enfatiza que o núcleo do luto reside na vivência da posição depressiva, na qual o sujeito reconhece que amor e ódio recaem sobre o mesmo objeto e se confronta com a angústia de tê-lo danificado em fantasia.
Essa vivência reatualiza, ao longo da vida, experiências traumáticas primárias ligadas à ameaça de perda do objeto interno bom, aproximando-se da lógica freudiana da repetição traumática descrita em Além do princípio do prazer. Contudo, Klein introduz um elemento decisivo que reconfigura essa repetição: a possibilidade de reparação. Enquanto a pulsão de morte freudiana se manifesta como tendência ao desligamento e à repetição, a teoria kleiniana destaca que o luto só se torna elaborável quando o sujeito consegue mobilizar impulsos reparadores, restaurando internamente o objeto amado que foi sentido como destruído. A reparação funciona, assim, como contrapeso à destrutividade pulsional, permitindo que a experiência traumática da perda seja transformada em crescimento psíquico.
Desse modo, o diálogo entre Freud e Klein revela que o luto se constitui no campo de tensão entre desligamento e ligação, entre repetição e simbolização, entre destrutividade e reparação. Entre Eros e pulsão de morte, o sujeito constrói suas possibilidades de elaborar a perda, preservar seus objetos internos e sustentar vínculos afetivos mais estáveis e criativos.
Melancolia, atividade e passividade e a perda
A melancolia, por sua vez, apresenta-se como um processo mais grave e paralisante, distinguindo-se do luto pela forma como a perda é inscrita na vida psíquica. Nela, a perda não se torna plenamente consciente, o que impede o deslocamento da libido para novos objetos. Em vez de elaborar a ausência, o Sujeito volta-se contra si mesmo, transformando o Eu em depositário da perda. Assim, enquanto no luto é o mundo que se mostra empobrecido, na melancolia é o Ego que se esvazia, manifestando queda acentuada da autoestima, incapacidade de amar, autorrecriminação intensa e sensação de envelhecimento precoce. Metapsicologicamente, a libido retirada do objeto não é reinvestida, mas retorna ao Eu, que se identifica com o objeto perdido, instaurando um empobrecimento profundo da vida psíquica. É nesse contexto que Freud recorre à metáfora da “hemorragia interna” para caracterizar o escoamento libidinal que consome o próprio Eu, indicando que a energia psíquica, em vez de circular e se reorganizar, permanece retida e operando contra o próprio Sujeito. Esse retorno da libido sustenta os fenômenos clínicos típicos da melancolia — a autopunição, a autodepreciação e, sobretudo, a culpa —, revelando que as acusações dirigidas ao Eu são, em grande parte, dirigidas ao objeto perdido, agora introjetado, o que mantém a ambivalência e intensifica a agressividade voltada contra si mesmo.
Em continuidade com a metapsicologia freudiana dos destinos da pulsão, especialmente conforme elaborada em As Pulsões e seus Destinos (1915), a melancolia pode ser compreendida à luz da distinção entre posições ativa e passiva. No plano da causa, o Sujeito encontra-se em posição passiva: a perda não é reconhecida em sua realidade, o vínculo não é elaborado conscientemente e o Eu permanece submetido a um processo inconsciente que se impõe a ele, sem que possa se apropriar da separação. Contudo, no plano do sintoma, observa-se um funcionamento paradoxalmente ativo: a produção incessante de autorrecriminações, a autopunição e a desvalorização de si configuram uma atividade psíquica intensa, organizada e persistente. Essa atividade sintomática evidencia que a agressividade originalmente dirigida ao objeto não desaparece, mas é reencaminhada contra o próprio Eu por meio da identificação, colocando o sujeito simultaneamente na posição de algoz e de vítima. Desse modo, a melancolia não se reduz a uma inércia psíquica, mas se estrutura como uma forma específica de atividade pulsional voltada contra o Eu: o Sujeito permanece passivo diante da causa inconsciente da perda e, ao mesmo tempo, ativamente implicado na manutenção e na repetição do sofrimento, o que favorece a fixação do quadro e a estagnação da circulação libidinal, em contraste com o trabalho de luto, no qual se torna possível o desinvestimento e o reinvestimento da libido.
Essa diferença entre atividade e passividade pode ser ainda mais esclarecida a partir da referência ao jogo do Fort-Da, descrito por Freud em Além do Princípio do Prazer (1920), a partir da observação de seu neto. Nesse jogo, a criança, ao lançar o carretel para longe (fort) e trazê-lo de volta (da), transforma a experiência passiva da ausência da mãe em uma experiência ativa, na qual assume simbolicamente a posição de “dono do jogo”. Ao repetir a cena da perda sob a forma de brincadeira, a criança não apenas tolera a ausência, mas a elabora, convertendo o desamparo em uma atividade psíquica que lhe permite inscrever a perda no campo da simbolização. Esse movimento contrasta de modo significativo com o que se observa na melancolia: enquanto no Fort-Da o Sujeito se convoca à atividade e encontra uma via de elaboração simbólica da ausência, na melancolia o Sujeito permanece, de certo modo, fixado em uma posição passiva diante da perda, não se apropriando da separação nem transformando a experiência de desamparo em trabalho psíquico. Em vez de assumir a cena da perda como algo que pode ser simbolizado e reinscrito, o Sujeito melancólico mantém a energia libidinal retida no próprio Eu, ficando estagnado no circuito da autodepreciação e da culpa, o que evidencia a dificuldade de atravessar o desamparo e de reinvestir libidinalmente o mundo.
Dessa forma, a leitura de Além do Princípio do Prazer permite aprofundar e complexificar as formulações de Luto e Melancolia, ao situar a problemática da perda no horizonte mais amplo da repetição, do trauma e da pulsão de morte. Se, em Luto e Melancolia, Freud descreve os diferentes destinos da libido diante da perda — seja o desinvestimento progressivo que caracteriza o trabalho de luto, seja o retorno da libido ao Eu que marca a melancolia —, em Além do Princípio do Prazer torna-se possível compreender como a compulsão à repetição e a hipótese da pulsão de morte inscrevem esses destinos em uma lógica que excede qualquer decisão consciente do Sujeito. O que se coloca em jogo não é uma escolha, mas a posição que o sujeito ocupa na economia psíquica, em relação à fantasia, ao objeto e às possibilidades de ligação e desligamento pulsional. A fixação melancólica, nesse sentido, pode ser pensada como efeito de uma organização específica da vida psíquica, na qual a perda não se articula ao trabalho de simbolização, mas se mantém em um circuito fechado de retorno libidinal ao Eu, autodepreciação e culpa. Em contrapartida, o exemplo do Fort-Da mostra que, quando a experiência da ausência pode ser inscrita em uma cena repetível e simbolizável, abre-se uma via de elaboração que se aproxima da lógica do trabalho de luto, sem que isso implique um domínio voluntário sobre o processo.
Assim, entre repetição e simbolização, entre desligamento e ligação, entre pulsão de morte e Eros, os dois textos se articulam ao evidenciar que luto e melancolia não designam apenas respostas à perda, mas modos distintos de organização da vida psíquica frente à ausência, à identificação e ao destino da libido.


